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sábado, 2 de abril de 2011

MEMÓRIA DESCARTÁVEL

Yuno Silva - repórter

A já combalida identidade cultural sofre novo golpe com o descarte de parte da memória representada pelos trabalhos do artista José Lemos, autor de três grandes painéis que ornamentavam o teto da Igreja Matriz Nossa Senhora da Conceição, em Ceará Mirim. A capacidade de transformar lixo em arte é sempre tida como um desafio enriquecedor, mas o contrário, quando a arte vira lixo, está se tornando cada vez mais comum no Rio Grande do Norte. Desgastados pelo tempo e corroídos pela falta de cuidado, os trabalhos de José Lemos, 80 anos, radicado na Paraíba desde 1956 em virtude de sua carreira militar, tiveram que ser retirados após laudo do Corpo de Bombeiros, emitido em 2007, condenando todo o telhado da imponente Paróquia localizada a cerca de 30 quilômetros da capital e inaugurada em 1858.

Abandonada, Santa Águeda aguarda restauraçãoInstaladas em 1952, as obras “Sagrado Coração de Jesus”, “Imaculada Conceição” e “Santa Águeda” foram removidas sem o devido cuidado e, mais uma vez, lá se vão para o ralo capítulos importantes de memória cultural. Além desta três pinturas, Lemos ainda assina uma quarta obra, “Santíssimo Sacramento”, criada em 2002 para substituir a original assinada pelo pintor espanhol Rafael Fuslter, de 1912, que também foi parar no lixo pelo mesmo descaso.

Antes de se cogitar a restauração dos painéis, os trabalhos foram sumariamente relegados ao esquecimento, e hoje se encontram separados em condições bem distintas: o já substituído “Sagrado Coração de Jesus” se encontra encostado em uma das paredes externas do Espaço Cultural Prefeito Roberto Varela, vizinho ao prédio onde funciona a estação de trem;  “Santa Águeda”, abandonada em um galpão como se fosse lixo; e “Imaculada Conceição”, o mais prejudicado dos três por ter sofrido com infiltração no telhado, e que hoje está guardado com a família do arquiteto Antônio Augusto da Silva Júnior, responsável pela reforma da Igreja Matriz. A reforma está sendo custeada por doações dos paroquianos, e já consumiu cerca de 160 mil reais. “Nosso objetivo é concluir a reforma até o final do ano, antes da festa da padroeira”, planeja o arquiteto. O orçamento total da reforma ultrapassa os R$ 500 mil.

Para cada uma das situações há uma explicação, mas nenhuma delas justifica a falta de interesse em restaurar as obras. Como a intenção é substituir os painéis, inclusive um deles já trocado em 2009, por nova versão para “Sagrado Coração de Jesus” assinada pelo artista cearamirinense Júlio Maria Siqueira. A permuta das outras duas pinturas seguem caminhos bem diferentes: a nova “Santa Águeda” será feita por freiras da Congregação das Irmãs Franciscanas Nossa Senhora do Bom Conselho, e a nova “Imaculada Conceição” será doada pela família do arquiteto Antônio Augusto.

“José Lemos foi uma das primeiras pessoas a incentivar a substituição das obras, pois foi um de seus primeiros trabalhos e ele considerava que sua técnica ainda não estava apurada”, afirmou o arquiteto. “Por ele as imagens deveriam ser substituídas”, garantiu. Nos planos de Antônio Augusto e do Padre Bianor, atual titular da Paróquia, a conclusão da reforma da igreja também está atrelada a criação de um museu de arte sacra, que acolheria as obras devidamente restauradas. “O objetivo é disponibilizar tudo para visitação pública, inclusive um trabalho original do pintor espanhol e a que está com minha família”, adianta.

Por sua vez, Lemos garante que em nenhum momento foi consultado ou procurado, e que ficou sabendo da situação através de amigos: “Gostaria muito que os quadros fossem restaurados, e não faço ideia onde estão os quadros que fiz”, disse o artista por telefone. Ele contou que, no início da década de 1950, quando já se cogitava substituir os originais, os nomes de Newton Navarro e Cândido Portinari foram sondados pela Paróquia, “mas, na época, o Monsenhor Celso Cicco (irmão de Januário Cicco) achou um exagero contratar esses artistas, e a deputado Luiz Varela me convidou para realizar o trabalho”, lembrou o artista. José Lemos elogiou muito a atuação do Padre Bianor, e frisa que as obras foram retiradas no período do Padre Assis. “Padre Bianor está conseguindo reformar a igreja, por muito tempo abandonada”, conclui.

O restaurador Waldeck Araújo de Moura, diretor da Fundação Cultural Nilo Pereira, também defende a manutenção dos painéis e se posiciona contrário à substituição das obras. “O ideal seria restaurar os trabalhos de José Lemos, por respeito ao artista ainda vivo, por respeito à própria memória da cidade. Gosto do artista que fez o novo painel, mas nada justifica”, disse Waldeck.

“Para restaurar uma obra de arte devemos seguir critérios, as marcas do tempo precisam ser preservadas com tratamento químico especial, recuperação da moldura e da própria tela”, explicou o profissional, que já atuou em projetos de restaurações em Minas Gerais, Salvador e Olinda.Quando as pinturas foram retiradas do teto da Igreja matriz Nossa Senhora da Conceição, “a mais imponente do Rio Grande do Norte”, segundo o diretor, ele foi atrás e resgatou o “Sagrado Coração de Jesus” em uma serraria antes que fosse desmanchada. “Tentei proteger o trabalho da melhor maneira possível, mas ainda não consegui colocar para dentro do Espaço Cultural – primeiro por suas dimensões, segundo pela necessidade de realizar tratamento na moldura tomada pelo cupim”, informou.

Waldeck ainda não tem projeto elaborado para captar recursos e se diz a espera de “interessados em colaborar”.

Fonte:   Tribuna do Norte

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