Gold Clock

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

UMA POTIGUAR NO FRONT DO CINEMA INDIE BRASILEIRO



-



Yuno Silva
repórter

Seja curta ou longa-metragem, com alguma verba, um bom roteiro e um elenco preparado se vai longe certo? Nem tanto. Desde que o acesso à tecnologia digital barateou o processo e os editais públicos serviram de alavanca para  viabilizar novas produções cinematográficas, o maior calo no sapato do cinema brasileiro é ser visto. Principalmente quando o assunto é cinema independente. "A distribuição desse material em um país de proporções continentais ainda é o maior obstáculo a ser superado - principalmente pelos independentes", afirma a potiguar Isabelle Cabral, diretora executiva da distribuidora Pipa Produções, que no começo da carreira chegou a divulgou filme até usando um estandarte na praia, como ambulante. Hoje, ela conta com 22 filmes distribuidos e 54 promovidos pelo Brasil a fora.
divulgaçãoFilmes como Elvis e Madona, Os Filhos de João e, agora, o  documentário Belair fazem parte dos filmes indies que a produtora potiguar distribuiu pelo paísFilmes como Elvis e Madona, Os Filhos de João e, agora, o documentário Belair fazem parte dos filmes indies que a produtora potiguar distribuiu pelo país

Morando no Rio de Janeiro desde o início da década de noventa, ela encontrou uma forma criativa de se destacar no meio da multidão de filmes que busca um lugar na sala escura. "Temos uma maneira diferente de abordagem que chamamos de distribuição criativa, onde consideramos como base para conquistar espaço três pilares fundamentais: primeiro estabelecemos estratégias diferenciadas de marketing para cada filme, em seguida buscamos fortalecer a rede exibidora e por fim potencializamos a base de consumidores", resume. Desde 2002 no mercado, ela diz que sua empresa é uma das menores distribuidoras do país, mas nem por isso "deixa de ter espaço".

Natural de Parnamirim, filha de militar aviador, ela não esconde suas origens: "Adoro Natal, tenho muito orgulho da minha terra, e o nome da produtora tem tudo a ver com a praia de Pipa. Também traz o simbolismo de voar, de alcançar outros horizontes", entusiasma-se. "Portanto, só com criatividade podemos fazer frente a filmes como Harry Potter, que chega ao país com mil cópias. Como temos pouco mais de 2,4 mil salas de cinema no Brasil, dá para imaginar o tamanho da disputa por espaço", verifica Isabelle, que trabalha com uma média de 15 cópias em 35 mm por filme.

Novos baianos

Responsável pela distribuição de filmes como o recém-lançado documentário "Filhos de João, o admirável mundo novo baiano", do diretor Henrique Dantas, recorte que remonta a trajetória da banda Novos Baianos em cartaz na sala 3 do Moviecom do Praia Shopping; e a premiada comédia "Elvis & Madona", de Marcelo Laffitte, que faturou seis prêmios no FestNatal 2010; e pela promoção dos longas "Tapete Vermelho" e o conceitual "Cinema, Aspirinas e Urubus", a Pipa Produções se diferencia por diversos fatores que a credenciam como alternativa certeira para realizadores que tem pouca verba para promover e divulgar.

"Além da distribuição criativa, que se sustenta a partir de uma rede de produtores parceiros espalhada pelo Brasil, também criamos o vale cinema - ingresso promocional gratuito que utilizamos para potencializar o boca a boca, que na minha opinião é a forma mais importante e eficiente de divulgação quando se trata de uma produção independente", garante. De acordo com Isabelle Cabral, essas estratégias são negociadas com os próprios realizadores dos filmes: "É uma relação de parceria, onde todos saem ganhando: público, distribuidor e cineasta", disse.

Rede de parceiros

DivulgaçãoA produtora potiguar Isabelle Cabral é diretora da Pipa Filmes, que distribui filmes do mercado independenteA produtora potiguar Isabelle Cabral é diretora da Pipa Filmes, que distribui filmes do mercado independente
Esses ingressos são distribuídos através de parcerias com projetos sociais, escolas públicas e universidades. "Procuramos até as escolas particulares de bairros nobres, pois sabemos que os adolescentes vão ao cinema com frequência mas não para ver filmes nacionais", analisa. Segundo ela, o público consome pouco o cinema brasileiro por falta de contato com as produções. "Se o produto cultural é feito com recursos públicos, nada mais justo que parte dos ingressos serem gratuitos", aposta.

Cabral lembra que esse papo de distribuição criativa e vale cinema começou há cerca de dez anos. "Em 2000, fiz um plano de divulgação especial para o primeiro filme Tainá e o resultado foi super bacana. No ano seguinte, o diretor Fernando Meirelles (Cidade de Deus), ainda em início de carreira, veio com quatro cópias da comédia 'Domésticas' e a ideia embrionária do vale cinema. Como já fazia parte de uma rede nacional de produtores parceiros, formada na época que estive à frente do projeto 'Cinema BR em Movimento', juntamos tudo isso com uma ação de marketing barata e bem planejada e a coisa fluiu", recorda. Depois Isabelle trabalhou na promoção de um filme de Carla Camurati, e uma coisa foi puxando outra até surgir a Pipa Produções. "Só entrei no ramo da distribuição em 2005, até então estava mais ligada às campanhas promocionais".

Atualmente a produtora esta com três longas em circulação: o documentário sobre os Novos Baianos; "O Gringo", sobre o jogador de futebol sérvio Petkovic; e "Belair", que conta a história produtora cinematográfica criada em 1970 por Júlio Bressane e Rogério Sganzerla. Vale registrar que essas três produções foram beneficiadas pelo edital da Petrobras para distribuição de filmes. Neste segundo semestre, a Pipa Produções leva às salas de cinema mais três filmes: a comédia "Elvis & Madonna" e os longas "Galinha Preta", de Brasília, e "Ponto Final", este último integrante da programação oficial do Festival de Cinema de Gramado.

A distribuidora mantém seu foco voltado para produções nacionais, e os filmes que estão no catálogo da Pipa Produções são garimpados, principalmente, em festivais. "Foi assim com 'Elvis e Madonna', estava em Natal acompanhando o documentário 'Cinderelas, Lobos e um Príncipe Encantado' onde conheci o (diretor) Marcelo Laffitte", disse.

Acidente mudou a carreira

Graduada em Biologia Marinha pela UFRN, Isabelle acabou seguindo outro rumo quando chegou no Rio de Janeiro. "Comecei a fazer teatro e já era uma espectadora assídua de filmes. Foi no cinema que encontrei minha turma", lembra a potiguar. O mergulho na sétima arte deu-se devido acidente que a deixou quase um ano de molho.Quebrou as duas pernas durante uma trilha radical nas matas cariocas. "Passei um ano estudando cinema por conta própria. Como tinha experiência na área de marketing, acabei indo trabalhar na universidade Gama Filho como programadora da sala de cinema de lá. Era a retomada do cinema nacional e promovi mostras e debates com diretores. Depois disso não parei mais", comemora.

Fonte;  TRIBUNA DO NORTE

Nenhum comentário:

Postar um comentário